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terça-feira, 19 de julho de 2016

Veja a Carta que Jon Maddog Hall mandou a Presidente Dilma

Veja a Carta que Jon Maddog Hall mandou a Presidente Dilma:

Veja a Carta que Jon Maddog Hall mandou a Presidente Dilma

Eu entendo que a senhora está irritada com meu país, os Estados Unidos da América, porque uma de nossas agências, a Agência
de Segurança Nacional (NSA), vem armazenando suas comunicações
privadas, lendo seu email e espionando a senhora e outros brasileiros.
 

Me desculpe por falar isso, mas “eu lhe avisei“.

 

Desde 1996 eu tenho vindo ao Brasil para falar sobre GNU/Linux e Software de Código
Aberto em geral. Depois dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001 e a
aprovação do, conhecido como, “USA Patriot Act of 2001” (Ato patriota
dos EUA de 2001). Eu comecei a sentir um frio na espinha, em que eu sabia de longe, que poderes amplos, descontrolados sem supervisão não era o que os patriotas que fundaram nosso país pretendiam… Na verdade, muito pelo contrário.
 


Durante os últimos 10 anos eu também
venho me envolvendo mais com questões sobre Cuba e o embargo que vem
acontecendo nos últimos 40 anos. Com a reação do meu país em
relação à eleição de Hugo Chávez, eu comecei a me perguntar o que
poderia acontecer com o Brasil (ou com muitas outras nações)
se estiverem em um embargo militar ou econômico.
 


Sendo da indústria de computação desde 1969, claro que eu pensei nas consequências de um embargo pelo ponto de vista da Ciência da Computação/Software, e isso vem sendo a minha maior motivação pelo desejo de ver o Brasil (e o resto do mundo) usando Software Livre e também projetando e manufaturando Hardware Aberto.
 


Nos últimos 10 anos eu venho dizendo
ao público ao redor do mundo que eu amo meu país, mas se a senhora não
vive no meu país então qualquer dado que é armazenado em meu país, ou
mesmo que passe de alguma forma por perto das fronteiras do meu país não
é realmente “privado”. Eu também venho dizendo a todo mundo que
software não é mais um item de luxo, e se todo o software tiver que
desaparecer do planeta, os seus elevadores vão parar e seus emails vão parar de ser enviados. Eu
tenho falado muitas, muitas vezes que os Militares nos Estados Unidos
não pensam duas vezes sobre colocar um código-fonte fechado criado por
companhias norte-americanas nos nossos tanques de guerra, aviões e
navios. (O Suporte Ninja falou um pouco sobre isso no caso dos Smart Rifles de precisão)
Porque essas empresas são levadas por cidadãos americanos leais… mas se você é a China ou (hum) Brasil, você deve realmente pensar duas vezes sobre colocar estes softwares nas suas armas se você não inspecionou todo o código por backdoors e cavalos de troia (trojan horses).
 


Muitas vezes eu também tenho mostrado questões de embargo econômico, propondo aquela pequena ilha fora da costa da Flórida como exemplo. Eu mostrei que empresas como Microsoft e Oracle não podem vender legalmente software para Cuba.
Mas é claro que Cuba usa software da Microsoft e Oracle. Porém Fidel
não pode ligar para Bill Gates e oferecer a ele uma caixa de cigarros
cubanos para resolver o problema que estão tendo. Bill Gates é um
cidadão americano fiel e não é permitido vender coisas high-tech para
Cuba.
 


Algumas dessas empresas têm programas que permitem você “olhar” todo o código fonte e inspecioná-lo à procura
de Trojan Horses e outras back-doors. Mas essas companhias realmente
esperam que você acredite que o código-fonte que você está olhando é
realmente o código fonte real e não código fonte oculto nos arquivos
binários dos seus produtos?
 


Nesse período de tempo eu tenho visto a
consagração de Software Livre e Código-aberto, desenvolvido ao redor do
mundo, com os olhos de todas as nações sobre ele. Software que pode ser
(como você sabe) tipicamente baixado pela internet de graça. E usando o
dinheiro, que você normalmente paga por licenças de software, para
pagar programadores nacionais para modificar estes softwares para suprir
as suas necessidades. Programadores nacionais que compram comida local, moram no país e pagam taxas nacionais… e que votam em políticos locais.
Eu tenho mostrado também que enquanto empresários em um país como o
Vietnam podem encontrar dificuldade para pagar 400 dólares por hora para
um programador, estes mesmos empresários vietnamitas poderiam
encontrar mão de obra local que poderia fazer o trabalho tão bom quanto e
por muito menos dinheiro.
 


No final eu ensinei sobre não armazenar dados brasileiros, particularmente dados sensíveis, fora das fronteiras do país.
Brasileiros vão votar na senhora, Presidente Rousseff. Se eles não
gostarem do que a senhora faz, eles podem votar em outra pessoa.
Brasileiros não podem votar no presidente Obama,
ou no John Boehner (o responsável pela USA House of Representatives),
nem podem votar na emenda na nossa constituição para melhor proteger
seus dados.
 


Eu vou falar que enquanto eu reconheço as vantagens de alguns tipos de infraestrutura na nuvem (Cloud
Computing), eu tenho falado muito o quanto a “Computação na Nuvem” iria
esconder o software do poder das pessoas e torná-las mais dependentes
de grandes empresas deste ramo (com seus servidores instalados nos EUA)
muito mais do que elas são hoje em grandes empresas de produtos de
código-fechado dos EUA.
 


A senhora pode não ter estado
em nenhuma das minhas apresentações, presidente Rousseff, mas seu povo
esteve, e eu fiquei triste que eles parecem que não levaram meus avisos a
sério… até agora.
Agora eu soube que a senhora quer
desenvolver um método para proteger o Brasil desses comportamentos
intrusivos e de espionagens dos EUA. Eu lhe parabenizo por isso e espero
que outros países façam o mesmo. Talvez o Brasil possa (mais uma vez) ser o modelo de como isso pode ser feito. Eu sei e entendo que isso não é fácil de se fazer, assim como implantar uma infraestrutura de segurança e privacidade não é fácil, nem é trivial de ser desenvolvido. Isto requer muito planejamento e trabalho duro.
 


Eu tenho boas notícias para a senhora, pois venho trabalhando em um plano há sete anos que tem como objetivo:
 


  • Criar milhões de novos empresários locais independentes, fornecendo
    empregos na área de alta tecnologia, treinando de pessoas para ajudar
    nessa questão de privacidade e segurança e ao mesmo tempo disponibilizar
    melhores serviços computacionais para usuários locais;
  • Criar um plano para milhões de “nuvens
    locais” e pequenos clientes que podem prover melhores serviços de
    computação nas nuvens de baixo custo para áreas urbanas com uso de pouca
    energia e com baixo custo de climatização;
  • Melhorar o tempo de resposta para comunicações wireless/sem fio que
    estão com problemas de saturação e de contenção, permitindo que centenas
    de megabits de dados por segundo sejam fornecidos para cada
    dispositivo;
  • Reduzir a quantidade de dispositivos eletrônicos jogados fora,
    mantendo o máximo de lixo eletrônico o mais longe possível de aterros
    sanitários;
  • Fazer com que os computadores sejam fáceis de se usar, salvando tempo e dinheiro dos usuários;
  • Ajudar a balança comercial brasileira gastando mais dinheiro em
    software e hardware dentro do Brasil ao invés de enviar esse dinheiro
    para fora do país;
  • Permitir que os brasileiros decidam onde rodar seus programas e onde
    armazenar seus dados dinamicamente, sob o controle do Brasil;
  • Utilizar computadores projetados e manufaturados no Brasil.
 
Tudo acima (e muito mais) pode ser feito hoje utilizando Software Livre (Open Source Software) e hardware já existente, mas a maioria dos hardwares são projetados e produzidos na China, e pelo fato deles não serem fabricados pelo processo de manufatura brasileiro nem ser projetados por indústrias de design de hardware do Brasil, abre a possibilidade de existirem “spywares” escondidos em “binary blobs” no próprio firmware seja de hardware ou software. (O Suporte Ninja também já falou sobre o assunto em ambos os casos EUA e China)
Meu plano é utilizar as universidades e indústrias brasileiras para
criar soluções high-tech, projetadas e manufaturadas em território
brasileiro.
 


Tudo acima foi pensado para ser financiado pela iniciativa privada, ficando com o governo
a responsabilidade de dar os incentivos (como isenção de impostos) que
milhões de novos empresários e centenas de companhias necessitam para
produzir esta estrutura. Entretanto, este projeto sendo financiado completamente pela iniciativa privada implica que poderia levar 20 anos para ser finalizado.
Com alguns pequenos investimentos iniciais por parte do governo e
cooperação de várias agências governamentais nós podemos fazer este
projeto auto-sustentável em 3 anos, e inclusive encurtar o tempo de
implementação do mesmo em 10 anos.
 


É um plano que venho falando
abertamente pelos últimos três anos, um projeto chamado “Project Cauã”, e
nós estamos trabalhando duro para tocar
este projeto para frente, pois estamos tendo dificuldade para obter
cooperação do governo brasileiro (federal, estadual e municipal) e da
indústria brasileira.
 


Project Cauã pode ser estendido para dar ao Brasil (e outros países) a independência necessária para controlar sua própria internet e ter seus próprios “serviços de nuvem” (No Suporte Ninja já falamos do problema das Nuvens, mesmo quando usam criptografia) sem fechar o acesso à internet mundial que as pessoas usam hoje.
 


Eu não estou pedindo a adoção do
Project Cauã, entretanto eu acho que o Project Cauã poderia dar ao povo
brasileiro vivendo em áreas urbanas (em torno de 70% da população)
muitos benefícios. Diante das questões que tenho falado nesta carta, eu
realmente acho que a senhora deveria:
 

  • Ensinar Software Livre, de Código e Hardware Aberto nas universidades federais;
  • Criar uma política governamental para acelerar a adoção de Software
    Livre, de Código e Hardware Aberto a um passo ainda mais rápido;
  • Incentivar a certificação de administradores de sistemas em FOSS (Ferramentas Livres), talvez diminuindo as taxas;
  • Criar ou incentivar a diminuição de taxas para novos empreendimentos
    de rede que possam trazer acesso local em alta velocidade para as
    “nuvens” para os usuários de uma determinada região.
 
O Brasil vem sendo um líder em FOSS por
muitos anos. Eu o tenho apelidado como a “estrela brilhante” do
movimento FOSS na América Latina. O Brasil vem seguindo algumas das
sugestões que mencionei acima, mas devido ao que vem acontecendo com relação a NSA, eu acredito que a senhora precisa acelerar isso ainda mais.
 

Estou indo falar sobre o Project Cauã
na Latinoware em Foz do Iguaçu nos dias 16 e 17 de outubro, e também em
uma conferência que será em Brasília no dia 8 de novembro. Eu não espero
que a senhora estará lá, devido ao fato que a senhora é muito ocupada,
mas eu gostaria de discutir seriamente com membros do seu governo e com
outros membros do governo brasileiro métodos para ajudar o Brasil a
direcionar seu próprio futuro de tecnologia da informação e talvez usando parte ou tudo o que se propõe no Project Cauã.
 


Isso talvez tome 10 anos, mas se a senhora não começar agora nunca vai chegar lá. Eu acho que a senhora gostaria que o povo brasileiro se lembrasse de você como a “Presidente do Progresso”.
 

Com o maior carinho,
 
Jon “maddog” Hall, Presidente Project Cauã